Entre latas de conservas reina a intolerância e a retirada de direitos
- Fabio Almeida

- há 5 dias
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Uma ala do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no carnaval do Rio de Janeiro, protagonizou, devido as eleições de 2026, uma ampla campanha publicitaria de políticos que se afirmam de direita no país. A contradição deles é imensa, pois se apresentam como liberais, mas ao mesmo tempo, se definem como conservadores. A lógica central é que na economia defendem o liberalismo (o estado mínimo), nos costumes estão ao lado de parcela de membros da comunidade cristã que almeja a consolidação de um estado teocrático (um estado forte).
O conservadorismo consiste na manutenção cultural de princípios sociais ou econômicos, os quais muitas vezes não integram o nosso contrato social. Mesmo a Constituição determinando que o Estado é laico, muitos atores políticos adotam princípios religiosos das mais variadas denominações para demonstrar o seu vínculo privado com determinada divindade. Essa é uma contradição brasileira. No entanto, os “Neoconservadores Enlatados” reproduzem um padrão de comportamento que se mostra efetivo como na postagem do Deputado Federal Diniz (União Progressista/RR) que afirma defender uma “família guardada”. Qual o medo que o parlamentar possui de sua família abrir os olhos para o brilho que é viver também em comunhão com quem ver o mundo de outras formas?
Vários são os políticos roraimenses que entraram na onda de contrapor adereços de carnaval que expressaram uma posição em relação as ideias de quem se autoproclama conservador no Brasil. Acredito que a definição mais lógica, para essas pessoas, seria reacionárias, pois muitas das pautas defendidas por eles já foram vencidas em tempos passados pelo nosso povo, a exemplo da submissão das mulheres aos seus maridos. Lembro aqui que até o ano de 1972 as mulheres casadas só tinham direito a crédito bancário ou a uma compra no crediário com autorização de seus esposos. Naquela época os conservadores proclamavam a submissão da mulher aos seus maridos, felizmente superamos essa métrica de opressão.
Mas, quando os conservadores de hoje afirmam que as mulheres devem se submeter aos interesses de seus maridos afirmam o quê? Proponhem as nossas mulheres retroceder em seus direitos conquistados no século XX? Será esse o caminho mais humano que devemos seguir em nossa sociedade? Como definiríamos a posição do senador Mecias de Jesus (Republicano/RR) que estampou sua cara numa lata, junto a várias mulheres de sua família, afirmando-se conservador. Defende o parlamentar que nossas mulheres retroajam em seus direitos como pessoa, como afirma o conservadorismo de direita brasileiro?
Um dos principais temas que os ditos “neoconservadores enlatados” apontam, como forma de mobilização popular - especialmente junto aos neopentecostais - mas também entre cristãos de várias outras denominações religiosas, é o tema da família. Em nenhum momento a Constituição afirma que a família deve ser assim ou assado. Pelo contrário, de forma genérica diz que a família é a base da sociedade, ou seja, ela pode ser composta de múltiplas formas. Mas, aqueles homens patriarcais afirmam historicamente que essa se realiza apenas quando a união se estabelece entre um homem e uma mulher. Será que podemos negar a 12% da nossa população o direito de viver sob a estrutura de uma família apenas por serem LGBT?
Não podemos classificar como conservadorismo, a intolerância de outras formas de existir e usufruir de direitos. Ao contrário do que apresentam os parlamentares a escola de samba não questionou o formato das famílias. A constituição de famílias fora do padrão heteronormativo é visto como um pecado, uma afronta a Deus para os conservadores. No entanto, como uma pessoa que não é crente no Deus Cristão pode pecar? Como seria uma representação do diabo, se a pessoa não consagra a existência desse Deus? O que vemos nessa assertiva neoconservadora é a intolerância as múltiplas formas de famílias, especialmente as homoafetivas. Em um passado não tão distante, o conservadorismo defendia que pessoas negras não podiam conviver maritalmente com pessoas brancas. Esse um pensamento ainda é presente em determinados segmentos políticos da sociedade, especialmente entre aqueles em que seu líder qualifica a pessoa negra por meio de “arroubas”.
Mas, o pensamento neoconservador representado por políticos roraimenses em uma lata de conserva – lembremos: as conservas são consideradas prejudiciais a nossa saúde – baseia seu discurso em torno de uma guerra cultural. Ao estabelecer sua ação política na construção de uma hegemonia cultural, serve como uma ferramenta de alienação da classe trabalhadora sobre questões objetivas que afetam a vida de nosso povo em seu ideário mais concreto, sua subsistência em um estado tão desigual e cheio de privilégios para alguns, dentre estes – os neoconservadores signatários de um estado mínimo para o povo, mas sugadores de sua riqueza – podemos colocar os parlamentares roraimenses “enlatados”.
Mulheres submissas aos interesses de homens; relativização das violências contra mulheres; formas de vestimentas adequadas; criminalização do aborto; perseguição a movimentos sociais; definição do homossexualismo como doença; cadeia para adolescentes ou até mesmo para crianças; fim de algumas denominações religiosas; morte as pessoas de esquerda; adoção de pena de morte; direito de meninas se relacionarem com homens; armas liberadas aos que podem comprar. Todas essas assertivas permeiam o ideário cultural do conservadorismo brasileiro; fim dos territórios indígenas. Quais ideias efetivamente contemplam os parlamentares de Roraima que estamparam suas famílias nas latas de conservas?
É fundamental que compreendamos isso, pois cada um deles teve por meio do voto o direito de representar o conjunto da sociedade. Assim, devemos como cidadãos e cidadãs, compreender quais as pautas conservadoras, nessa uma sociedade patriarcal e intolerante, que essas políticos defendem. Não é só se apresentar como conservador, temos o direito de saber quais as pautas que se coadunam com a forma de ver a vida desses políticos. Pois, uma pessoa que acredita que a mulher possui um papel subalterno aos interesses dos homens, pode pensar assim, mas não serve para representar nosso povo. Recentemente, esses neoconservadores tentaram, no congresso nacional, acabar com o direito de meninas, adolescentes e mulheres poderem abortar em casos de estupro, risco de morte para mãe ou crianças com anencefalia. Mereciam eles não apenas adereços, mas sim, uma alegoria enorme.
Os conservadores de ontem defenderam a continuidade da escravidão para não quebrar a economia cafeeira, agroexportadora. Os neoconservadores de hoje defendem o fim dos direitos trabalhistas, ampliação da jornada de trabalho, fim do descanso remunerado, até mesmo o congelamento do salário mínimo. Tudo para ampliar os lucros dos patrões. Como a escravidão é um crime inafiançável, não podem defendê-la, mas muitos a praticam. Lembro aqui que um ex-chefe da casa civil, sócio do atual governador de Roraima, fez constar seu nome na lista de crimes análogos a escravidão. É esse conservadorismo liberal que a classe trabalhadora apoia?
Portanto, ser conservador consiste, no Brasil, em admitir pautas econômicas que penalizam a população. A classe trabalhadora, independentemente de sua crença religiosa necessita compreender o que se encontra em jogo, pois ao final do desfile somos nós, especialmente os mais pobres, que pagaremos a conta de uma aventura conservadora que almeja, em muitos casos, estruturar sua violência e intolerância de classe escamoteada por um discurso sob viés cultural, a partir do amparo do nome de Deus, o qual vivendo nestes tempos poderia sofrer um lixamento coletivo, por parte daqueles que profanam seu nome ao misturarem religião e política, como forma de controle da sociedade e manutenção de seus privilégios.
As conservas enlatadas do sambódromo carioca reproduziram o que de pior produziu a história política brasileira nos últimos 20 anos. Vencer o ódio como prática política é necessário, bem como é fundamental que os eleitores roraimenses que almejem melhoria de sua qualidade de vida cobrem de seus representantes qual sua posição política, pois o slogan "Deus, Pátria e Família", defendido por exemplo pelo Deputado Federal Nicoletti, outro que fez questão de se apresentar numa lata de conserva, não representa nada ao povo, pois quando foi chamado para aprovar o corte de 40% na aposentadoria do trabalhador por doença ou acidente fora do ambiente de trabalho, ele adotou uma posição conservadora, mas de cunho liberal, votando sim, sustentando a perspectiva de apropriação da riqueza da classe trabalhadora, este um conservadorismo de viés econômico, não cultural.
Acorde e abandone as latas de conserva em nome da sua saúde e da melhoria de nossa qualidade de vida. Caso contrário, relegaremos aos nosso filhos e filhas, das múltiplas formas de família, uma sociedade pior da que recebemos de nossos pais. A lógica de nossas vidas não pode ser querer regular a vida privada de outro – desde que essa não faça mal a coletividade social. Mas, a forma que a direita encontrou para crescer é facilitar a implantação do seu reacionarismo econômico, a partir de uma pauta alienante de cunho cultural. Desta forma, sob o manto da família a direita reacionária brasileira aprova sua pauta econômica que desestrutura as famílias, sob seu governo recente que caminhou rumo ao extremismo, todas as políticas de amparo social foram encerradas ou diminuídas, mas isso, não acabou, basta vermos o voto contrário do Deputado Nicoletti ao estabelecimento do gás do povo que permitirá as famílias pobres terem uma botija de gás todos os meses.







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